Toxicodependências

causas das toxicodependências

Sumário

1. Propriedades farmacológicas da droga

2. Características individuais do consumidor

2.1 Idade e sexo

2.2 Tolerância à frustração

2.3 Auto-estima e assertividade

2.4 Aceitação das normas

2.5 Predisposição para doenças mentais

2.6 Predisposição genética

3. Contexto social do consumidor

3.1 Família

3.2 Escola

3.3 Trabalho

3.4 Amigos

3.5 Actividades sociais

3.6 Nível socio-económico

3.7 Comunicação social

3.8 Cultura social

3.9 Aspectos geopolíticos

4. Bibliografia

A toxicodependência define-se como uma dependência a um "tóxico" ou droga que provoca adicionalmente perturbações psicológicas no consumidor.

As drogas não são todas iguais quanto à sua perigosidade intrínseca e, para aumentar a confusão, algumas drogas mais tóxicas (ex: o álcool) podem ser ingeridas de forma controlada por muita gente sem problemas de maior! Por outro lado, a heroína, ao contrário do álcool, é uma droga com menos efeitos tóxicos a longo prazo (embora, tal como é consumida actualmente - em condições de marginalidade, falta de higiene e sem controlo - possa ser muito perigosa), mas que tem uma capacidade tão elevada de criar dependência, que é impossível deixar de ficar "agarrado" após alguns consumos.

Assim, não se deverá meter no mesmo saco todos os consumos e todas as drogas, porque estas têm características diferentes e é possível utilizar algumas delas de forma não abusiva.

Mesmo quando existe consumo abusivo (ou seja, já descontrolado) nem todas as drogas são idênticas falando-se preferivelmente de toxicodependências em vez de toxicodependência.

O que atribui perigosidade real a uma determinada droga, assim como o que induz e mantém o consumo de uma droga, é um conjunto de factores que interagem de forma dinâmica e estão relacionados com três variáveis: a droga (propriedades farmacológicos), o consumidor (características psicológicas) e o ambiente social que o rodeia.

Propriedades Farmacológicas da Droga

As diferentes propriedades das drogas poderão ser melhor visualizadas se pensarmos nas características da substância como um triângulo com três facetas: os seus efeitos sobre a saúde, a sua capacidade de provocar dependência e os seus efeitos sobre o comportamento. De acordo com esta figura, há drogas que têm um efeito muito nocivo sobre a saúde mas não causam dependência nem alterações ao comportamento, sendo o contrário também possível.

O tabaco e o café, por exemplo, são drogas que não alteram de forma significativa o comportamento do consumidor e por isso permitem uma vida de relação social normal. No entanto, o tabaco é um exemplo claro em como uma droga pode não dar alterações de comportamento mas pode provocar alterações graves da saúde. A marijuana, pelo contrário, provoca alterações do comportamento, o que a pode tornar perigosa na condução de veículos e noutras situações mas, da forma como tem sido consumida (geralmente fumando menos cigarros por dia), tem provavelmente menores implicações para a saúde que o tabaco.

Por outro lado, relativamente à capacidade para provocar dependência, poderemos afirmar que a heroína, a cocaína e o álcool, são as drogas mais perigosas. Pelo contrário, o tabaco, os canabinóides, o café, mas também o ecstasy e o LSD são drogas que provocam dependências apenas ligeiras.

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Características Individuais do Consumidor

Idade e Sexo

A adolescência é uma fase difícil para cerca de um terço dos adolescentes, cujos problemas mal resolvidos de conflitos familiares e de identificação errada com determinados modelos "de papel" que luzem a oiro aos seus olhos, provocam frustrações que impelem à fuga para a droga.

Por outro lado, a adolescência é para todos uma época de experimentação e de procura dos limites do "eu", o que leva frequentemente à iniciação das drogas (mais frequentemente, álcool, tabaco e cannabinóides).

O sexo masculino, talvez por razões culturais, é mais afectado pelo consumo de drogas, embora o sexo feminino, depois da iniciação , tenha um percurso mais rápido e degradante.

Tolerância à Frustração

A frustração existe todos os dias para todas as pessoas, mas a maioria "encaixa" a dor e segue em frente à conquista ou à espera de melhores dias. Infelizmente, há sempre uma minoria que tem uma atitude intransigente não suportando viver a frustração momentânea, não lhes servindo de forma alguma a suposição de que o futuro será melhor se combaterem por ele.

É uma atitude aprendida logo nos primeiros anos de vida e que continua na adolescência: estes jovens aprendem a evitar a todo o custo sofrimentos momentâneos, embora o enfrentar destes sofrimentos seja parte importante do seu processo de maturação. Efectivamente, os problemas emocionais da adolescência são um passo obrigatório do desenvolvimento da personalidade, em que se adquire a atitude vital de enfrentar os problemas e a fazer planos a longo prazo, definindo objectivos e acomodando desejos aos objectivos.

Para quem não tolera a frustração, as gratificações imediatas são imprescindíveis, sem avaliar as possíveis consequências negativas das mesmas a prazo, o que funciona como uma poderosa motivação para a iniciação à droga.

Baixa Auto-Estima, Assertividade Pobre, Necessidade de Aprovação Social

Quem está convencido que tem pouco valor (baixa auto-estima) é muito influenciável pelos outros (grande necessidade de aprovação social) e não tem força para recusar a iniciação à droga se o grupo o pressionar (fraca assertividade). A incapacidade de assumir valores e de ter opiniões próprias com alguma autoconfiança é talvez o maior risco individual para a iniciação às drogas.

Não Aceitação Sistemática de Normas

Quase todos nós consideramos que algumas das normas sociais não devem ser aceites. Esta capacidade de pôr em causa as normas sociais é saudável e muito comum na adolescência. No entanto, para algumas pessoas, a oposição a tais normas é sistemática e converte-se num "modus vivendi". A coberto de argumentações explícitas como a luta contra as normas injustas e a procura da liberdade individual contra as "grilhetas sociais", estão valores e atitudes de carácter negativo como o cepticismo, hedonismo, egocentrismo e falta de responsabilidade e disciplina social.

Nestes casos sucedem situações de "desvio social" propícias à iniciação da droga.

Predisposição Latente para Doenças Mentais

Os canabinóides são drogas relativamente inofensivas mas, em determinados indivíduos predispostos, podem acelerar o desencadear de doenças mentais graves (psicose). A cocaína, anfetaminas, ecstasy e o LSD podem também induzir crises psicóticas e o aparecimentos destas doenças em determinados consumidores.

Predisposição Genética Para a Toxicodependência

Embora não seja conhecida a real influência que os factores genéticos têm, a verdade é que parece existir em alguns casos uma certa predisposição genética. No entanto, a investigação não tem identificado genes únicos mas sim um conjunto de genes que modificam globalmente o balanço de neurotransmissores, o que resulta num espectro de doenças impulsivas, compulsivas, aditivas, afectivas e ansiosas, ao longo da vida

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Ambiente Social do Consumidor

A Família

Os pais são os primeiros modelos dos filhos. Se os pais são consumidores de drogas (geralmente legais, como é o caso do tabaco, álcool, ou tranquilizantes) fornecem um modelo de consumismo que os filhos tendem a seguir.

Efectivamente, as crianças aprendem mais com o que vêm os pais fazer, do que com os conselhos que ouvem dos pais.

Por outro lado, a forma como os pais interagem ou não com os filhos, ou seja a forma como educam os filhos é provavelmente o mais importante:

A Escola

Os professores funcionam sempre como pais substitutos, mesmo quando disso não têm consciência. É saudável que esta substituição seja apenas parcial, ou seja, que os pais continuem a assumir plenamente as suas funções de educadores principais. No entanto, em alguns casos de ausência/negligência total dos pais, os professores são os únicos educadores válidos.

Assim, tudo quanto foi dito sobre a interacção entre pais e filhos é válido para a interacção entre os professores e alunos: o professor é um modelo pelo que não deverá ter comportamentos consumistas (ex.: fumar na escola) e deverá providenciar para que na escola haja disponibilidade, negociação, disciplina e encorajamento.

Uma variável que se correlaciona fortemente com o consumo de drogas é a percepção de insucesso escolar. Esta percepção atinge alunos com handicapes familiares, para quem os curriculos escolares normalizados não foram feitos. Se a escola não tiver currículos alternativos (o que não significa apenas menos matéria a leccionar, mas sim, realmente, temas e métodos alternativos) e outras actividades extra-curriculares que saibam aproveitar as virtudes destes alunos, geram-se fatalmente grupos de adolescentes com baixa auto-estima, ausência de perspectivas de futuro, e escasso compromisso com as regras e normas da escola. Daqui ao consumo de drogas vai um passo muito pequeno...

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O Trabalho

Períodos muito longos de trabalho, com ritmo muito intenso, convidam ao consumo de drogas estimulantes (ex.: anfetaminas) e outras. Isto sucede ocasionalmente em profissões específicas como os mineiros, os estudantes (antes dos exames, alguns experimentam as anfetaminas) e os desportistas de alta competição ("doping").

Os Amigos

A necessidade de se integrar num grupo de amigos que só o aceitam se consumir... O adolescente que não tenha família ou escola onde se reveja, procurará ansiosamente a aprovação do grupo de amigos que, provavelmente, será constituído por adolescentes mais velhos mas com os mesmos problemas e sempre a mesma alternativa: o consumo iniciático e/ou mantido de drogas...

As Actividades Sociais

A falta de centros recreativos de desporto ou culturais faz com que para muitos jovens, a única forma de se divertirem e se socializarem seja à volta do álcool ou outras drogas.

O Nível Socio-Económico

A falta de perspectivas de futuro para os jovens que vivem em bairros da lata é um poderoso incentivo à evasão através da droga. Estes jovens cresceram no meio da violência brutal, sem saneamento, sem água potável, com alimentação miserável, pelo que falar-lhes na necessidade de pensarem na sua saúde e na alegria de viver sem drogas tem nuances surrealistas. Sem resolver alguns problemas sócio-económicos graves de alguns excluídos da nossa sociedade não é possível excluir a droga.

A Comunicação Social e a Publicidade

O fascínio cultural, representado na comunicação social, pela droga, atrai jovens com interesse em experimentar o risco por novas experiências.

O exagero e dramatização que é por vezes usado em campanhas moralistas contra a droga do género "DROGA LOUCURA MORTE" tem efeitos perversos porque os jovens apercebem-se dos exageros e acabam por não dar crédito à mensagem, assumindo em contrapartida uma atitude positiva face à droga porque "se os que são contra a droga são mentirosos, então é porque a droga é boa" ...

A comunicação social, por ser controlada por indivíduos que pertencem à nossa cultura e enfermam dos mesmos mitos, tende a reforçar estes mitos, nomeadamente:

Por outro lado, mais no que diz respeito às drogas legais como o álcool e o tabaco, a publicidade faz associar de forma mentirosa o seu consumo à saúde e beleza, através de imagens de juventude e vigor sugestivas.

A Cultura Social

Novamente o álcool é um exemplo paradigmático porque não sendo na nossa cultura uma droga estigmatizada e ilegal, a iniciação aos seus consumos é vista de forma benevolente. Também devido à sabedoria acumulada de séculos nas sociedades ocidentais, as pessoas sabem geralmente como evitar os seus efeitos devastadores. No entanto, a sua introdução repentina noutras culturas que não têm tempo para criar os "travões" adequados, pode provocar o descalabro social (como foi o caso da cultura índia na América do Norte).

Os Aspectos Geopolíticos

O narcotráfico assenta na economia global aberta, nos problemas económicos de muitos países do Terceiro Mundo, especialmente alguns países da América Latina e Ásia e na incapacidade de evitar que muitas empresas conscientemente ou não, façam lucros no próprio Primeiro Mundo.

Estas questões geopolíticas estão principalmente relacionadas com o controlo da oferta.

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Bibliografia

Casas, J.- Todo lo que deben saber sobre la drogadicción y otras toxicomanías - De Vecchi, Espanha, 1987.

Gomes, A. - Um olhar sobre a toxicodependência - Oxigénio, Ano 5, nº17, 1998, pp. 11-16.

Lowinson, J. H.; Ruiz, P; Millman, R. B.; Langrod, J. G. - Substance abuse. A comprehensive textbook - Williams & Wilkins. 3º ed. 1997.

Marques-Teixeira, João, MD, PhD - Factores biológicos e toxicodependência, revisão de estudos no âmbito da neurobiologia das drogas - Toxicodependências, Edição SPTT, Ano 4, nº3, 1998, pp.3-26.

Sampaio, D. - Vozes e ruídos. Diálogos com adolescentes. - Editorial Caminho, Lisboa, 1993.

Stockley, D.; EDEX - Drogas: guía ilustrada para agentes de polícia - Bilbao - Espanã, EDEX, 1997.

António Paula Brito de Pina © Portal de Saúde Pública, 2000